O meu olhar no seu

A viagem, mesmo que seja planejada, é sempre uma ida ao desconhecido, um encontro curioso com o inesperado. Mais que seguir um trajeto predeterminado, um caminho de um ponto a outro, viajar é se deixar levar pelo imprevisto, pelos desvios que nos retiram da rota. Em vez de ser apenas um deslocamento de um ponto no espaço até outro, a viagem é um mergulho no tempo e no que está entre. Trata-se de um tempo como qualidade e não apenas como uma soma de minutos, horas ou dias.

A primeira versão de Empesto meus olhos aos seus foi em uma viagem que Ana Teixeira realizou em 2007, de carro, num tortuoso itinerário de São Paulo até Montevidéu. O objetivo não era apenas chegar ao destino, mas era o próprio percurso, que foi compartilhado e, em parte, traçado a partir do olhar dos outros.

O trabalho, como grande parte da obra da artista, é uma troca. Ele envolve uma relação prévia com o outro, nesse caso, amigos que enviaram pedidos, e uma investigação da artista sobre os locais, pessoas ou ações que os olhos dos outros gostariam de ver. É como se, durante a viagem, o olhar dos outros invadisse parte do campo de percepção da artista, as fronteiras de seu corpo, numa espécie de interseção entre seu universo e o dos outros. Ao final, Ana Teixeira elaborou um registro visual e discursivo, além de um diário, que foi encaminhado como um retorno do olhar dela ao olho para quem ela havia oferecido o seu.

Mas essa espécie de relatório sobre o que foi visto, como todo olhar, é sempre incompleto. O que foi olhado, o visível, possui sempre uma dimensão invisível, subjetiva, que o sustenta por dentro. Seu olhar não se pretende absoluto, como aquele olho que tudo enxerga, mas é um olhar generoso que divide, com os outros, seu ponto de vista determinado. Alguns pedidos foram atendidos aos poucos, em várias cidades; outros, em um único dia. Foram muito singulares e específicas as encomendas, mas a artista diz, em seu diário, já no momento da volta, que sente falta de mais, como se possuísse um olhar insaciável, uma vez que ver com o outro é sempre um prazer.

O que se passa é que a artista oferece seus olhos para ver o que ela não veria sozinha. É como se ela assumisse, desde o início, que ver não é apenas uma ação solitária, mas um ato coletivo a partir de um fundo intersubjetivo. Apesar de o diário descrever experiências que não são apenas visuais, a ênfase do trabalho, como o título anuncia, é o olho. Mas o olho não é apenas um órgão isolado do corpo. Ele também está ligado ao cérebro, aos pensamentos, e é dotado de objetividade e subjetividade. Ou seja, Ana Teixeira não levou apenas os olhos dos outros, mas também algo incorpóreo, uma parte imaterial, ideias e desejos. Emprestar os olhos é algo que pressupõe, simultaneamente, um aspecto exterior e interior, levar algo de dentro de cada um para fora e vice-versa. Nesse sentido, a viagem de Ana Teixeira é um modo de ela se perder no olhar do outro, uma demanda externa, e isso pode ser, ao mesmo tempo, uma possibilidade de reencontro dela consigo mesma.

Para que o olhar do outro possa ter legitimidade, é preciso reconhecer que existe um terreno comum habitado por todos. Isso não implica apagar as individualidades. Ana Teixeira não deixa de enxergar com seus próprios olhos, mesmo que os empreste, simbolicamente, para os outros. Não se trata de uma negação de si para que o olhar do outro surja. Por mais que o eu e o outro se comuniquem, construam uma situação comum, o eu não se dilui no outro. Há uma espécie de reciprocidade entre os olhos de Ana Teixeira e os olhos de seus convidados.

A artista se nega a tratar o outro como uma coisa, como um mero meio ou objeto para a execução de um trabalho. O outro não é apenas alguém que lhe pede uma encomenda, tampouco “o inferno”, com dizia Sartre. O modo como eu vejo o outro – e, no caso de Ana Teixeira, vejo com o outro – modifica o modo como ela passa a se ver e ver o mundo ao redor.

My Gaze on Yours

A trip, even if planned, is always a journey into the unknown, a curious encounter with the unexpected. More than following a predetermined route, a path from one point to another, taking a trip is to allow oneself to be carried along by the unforeseen, by the detours that lead us away from the route. Instead of being merely a movement from one point in space to another, the trip is a dive into time and the in-between. Its time is measured by its quality rather than as a sum of minutes, hours, or days.

The first version of Empresto meus olhos aos seus [I’ll lend my eyes to yours] was on a trip that Ana Teixeira took in 2007, by car, on a winding route from São Paulo to Montevideo. The trip was not made merely for the sake of arriving at the destination, but rather for the process itself, the way of getting there, which was shared and, partly, traced out based on the perception of others.

Like a large part of the artist’s oeuvre, this work was an exchange. It involves a prior relation with the other, in this case, friends who sent requests, an investigation by the artist into the places, people, or actions that the eyes of others would like to see. It is as if, during the trip, the gaze of others invaded part of the artist’s perceptual field, the borders of her body, in an intersection of sorts between her world and that of others. In the end, Ana Teixeira elaborated a visual and discursive record, along with a diary, which was sent as feedback from her gaze to the eye of who had offered her theirs.

But this sort of report about what was seen, like every gaze, is always incomplete. Whatever was seen, the visible always has an invisible, subjective dimension, which sustains it on the inside. Her gaze does not aim to be absolute, like an all-seeing eye, but is a generous gaze that shares, with the others, its determined point of view. Some requests were attended to gradually, in various cities; others, in a single day. The requests were very singular and specific, but as the artist stated in her diary, at the moment of her return, she felt a wanting for more, as though she had an insatiable gaze since seeing with the other is always a pleasure.

What is happening here is that the artist offers her eyes to see what she would not see alone. It is as though she had assumed, from the outset, that seeing is not only a solitary action but a collective act based on an intersubjective background. Although her diary describes experiences that are not only visual, the emphasis of the work, as the title announces, is the eye. But the eye is not just an isolated organ of the body. It is also linked to the brain, to the thoughts, and is equipped with objectivity and subjectivity. That is, Ana Teixeira did not bring only the eyes of others, but also something incorporeal, an immaterial part, ideas and desires. Lending one’s eyes is something that presupposes, simultaneously, an outer and inner aspect, bringing something from inside each person to the outside, and vice versa. In this sense, Ana Teixeira’s trip is a way for her to lose herself in the gaze of the other, an external demand, and this can be, at the same time, a possibility for re-encountering herself.

In order for the gaze of the other to have legitimacy, it is necessary to recognize that there is a common terrain inhabited by everyone. This does not require the erasing of individualities. Ana Teixeira does not stop seeing with her own eyes, even when she lends them, symbolically, to others. This is not a negation of oneself in order for the gaze of the other to arise. For as much as I and the other communicate, construct a common situation, the self is not diluted in the other. There is a reciprocity of sorts between Ana Teixeira’s eyes and the eyes of her invitees.

The artist refuses to treat the other as a thing, as a mere means or object for the execution of a work. The other is not only someone who makes a request to her, nor “hell,” as Sartre said. The way that I see the other—and, in Ana Teixeira’s case, how I see with the other—modifies the way she begins to see herself and see the world around her.

Empresto meus olhos aos seus is, above all else, an opening to an experience with the other. It is not just a confirmation of that which she already knew beforehand in the preparation of the trip, but the possibility for one gaze to penetrate another, in a physical and psychic exchange. The other is a constituent of the self. Just as it is not merely a double that obliterates me and transforms me into an object, the other is that which reveals who I am. Lending one’s eyes to the other, as Ana Teixeira did, is an exercise of complicity, it is a way of getting out of one’s personal fortress, one’s interiority, to truly encounter the world.

 

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