Denominador Comum

Por que a opção por uma pesquisa subjetiva (ou uma proposição de experiência identitária) no trabalho da Ana Teixeira, em vez de uma pesquisa de público nos moldes científicos?
Assim como pesquisas oficiais trabalham critérios predefinidos de nivelamento social, aqui se trabalha sobre um recorte sobre esses demonstrativos comuns, de forma a personalizar ou subjetivar esses critérios. Assim como uma pesquisa de público visa “traçar, com alguma precisão, o perfil sociodemográfico desse usuário: sexo, idade, renda, estado civil, escolaridade, classe social, ocupação, região de moradia e nível de renda”, a pesquisa proposta por Ana Teixeira é mais uma experiência identitária que um retrato de uma visitação.
Propõe-se aqui, sim, um paralelo com a cientificidade da pesquisa: elegem-se nome, ano e local de nascimento como dados pesquisados. Porém, o desvio do cientificismo está na eleição de um nome, um sobrenome, um local e ano de nascimento.
Investigador e investigado são iguais. Ana Teixeira forja, assim, a cumplicidade com seu interlocutor – talvez a cumplicidade do biógrafo, do ghost-writer, atitude impossível em se tratando de um pesquisador, que deve manter a isenção científica.
É claro que falamos aqui de uma antipesquisa, pois a pesquisa perde sua função original para tornar-se ferramenta de construção de um determinado perfil biográfico. O perfil de um corpo coletivo criado a partir de repetições de sinais identitários comuns. Denominadores comuns. A artista está propondo, realmente, uma operação de espelhamento com a instituição; está procurando a interface entre ela e o arsenal humano que compõe a instituição. Nessa interface, que é sua obra, ela inscreve uma espécie de relato autobiográfico de um corpo coletivo. Fala-se, afinal, aqui, de uma identidade comum (que estará representada nos gráficos de Inventário), porém inconstante (o que estará implícito nos depoimentos em vídeo de Imaginário).
Pierre Bordieu fala no nome próprio como um “designador rígido”, que “designa o mesmo objeto em qualquer universo possível”.
Ana Teixeira elege não o nome próprio como padrão identitário, mas o denominador comum. Se o nome próprio é “um ponto fixo em um mundo que se move”, o denominador comum de Ana é um corpo instável dentro de um ponto fixo, ou espaço determinado: o CCSP.
Critérios, por mais científicos, são sempre subjetivos.

Common Denominator

Why the choice of a subjective survey (or a proposition of an identity experiment) in Ana Teixeira’s work, instead of a public survey based on scientific methods? Just as official surveys are based on predefined criteria of social classification, here a cross-section of these common elements serves as the basis to personalize or subjectify these criteria. Just as a public survey intends to “outline with some precision the socio-demographic profile of the respondent: sex, age, income, civil status, education, social class, occupation, region of residence, and income level,” the survey proposed by Ana Teixeira is more of an identity experiment than a portrait of a visit.
A parallel with the scientific nature of surveys is actually proposed here: name, year and place of birth are elected as the research data. However, it strays from scientific method by selecting one name, one surname, one place and year of birth. The investigator and investigated are the same. Ana Teixeira thus forges a relationship of complicity with her interlocutor, or perhaps the complicity of the biographer, of the ghostwriter, an impossible attitude when dealing with a researcher, who should maintain scientific detachment.
Of course, what we are addressing here is an anti-survey, as the survey loses its original purpose to become a tool to construct one given biographical profile. The profile of a collective body created from repeated, common signs of identity. Common denominators. The artist is really proposing an operation mirroring the institution. She is seeking the interface between herself and the human arsenal that comprises the institution. At this interface, which is the work itself, she inscribes an autobiographical report of sorts on a collective body. Ultimately, the work speaks of a common identity (that will be represented in the graphs of Inventário [Inventory]), that is, however, inconstant (as will be implicit in the video accounts of Imaginário [Imaginarium]). Pierre Bourdieu considers the proper name a “rigid designator” which “designates the same object in every possible world.”
Ana Teixeira elects not the proper name as the identity standard, but the common denominator. If the proper name is “a fixed point in a world in motion,” Teixeira’s common denominator is an unstable body within a fixed point or given space: the CCSP (Centro Cultural São Paulo).
However scientific they may be, criteria are always subjective.

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