Não mais, mas ainda

– Seria mais fácil ter perdido uma parte externa de mim.

Amores moram dentro. A perda, não por desavença, mas por decisão da natureza, é avassaladora, como se um órgão interno tivesse sido removido. O corpo não funciona mais como antes. Fica alterado. A dor, como de um prego perfurando o pulso, é o que mais se assemelha a esse sentimento insuportável que nos acomete quando percebemos a finitude. Ele, ser amado, já não está, eu um dia não estarei. A ausência passa a ser o que é mais presente. Então ele ainda está, só que nessa forma de ausência. Não faleceu simplesmente. Ele é falecido.

A exposição “Não mais, mas ainda” de Ana Teixeira elabora o luto em desenhos, fotografias, instalações e em uma performance. Se nossa época não provê rituais suficientemente reconfortantes ou se nossa sociedade não é um grupo acolhedor, cabe a cada um inventar seus ritos de passagem. E Ana Teixeira o faz desenhando mãos que sentem na carne a dor de não mais alcançar o que querem. Perfuradas, queimadas, espremidas, essas mãos desenhadas com linhas brancas em papel preto repetem a palavra tatuada no pulso: ainda. São duras, resistem à dor. Em dois grandes desenhos, também em branco sobre papel preto, galhos de árvores, de um imaginário que pertence ao fantástico e ao fantasmagórico, lançam-se como se quisessem povoar os cômodos. Brotam do armário, saem da cama, ainda estão lá. O sapato é signo dessa ausência, a flauta só toca essa mesma melodia, a dos galhos da melancolia. Em outro desenho, uma mão lânguida deixa-se tomar por esses brotos de tristeza. Nem parece a mesma mão forte que no início do processo se deixava perfurar.

Finalmente mãos e galhos se fundem na instalação de parede com 35 peças que ora parecem pequenos galhos, ora assemelham-se a mãos crispadas. Força para aguentar a dor e vontade de melancolia integradas na mesma peça.

As fotografias dessa exposição remetem a um filme cujas imagens se perderam, e do qual restou só a legenda: – E pra que serve a lua agora?

Cultivar a ausência, regá-la com o choro, legendá-la com palavras, são estratégias para procrastinar a retomada, manter-se na companhia, ao menos, da ausência, adiar a reinvenção da vida nesse corpo novo, que perdeu um apêndice. Aliás, dois: tanto a pessoa amada quanto a ilusão da infinitude. Interessantemente, diz-se em português que quando uma pessoa sabe que vai morrer, está desenganada. Enganamo-nos em todos os outros momentos, com a suave ilusão de que somos perpétuos. Quem perdeu alguém amado desengana-se também, passa a viver sem o apêndice do auto-engano, consciente de que a vida acaba. Não é coisa fácil tocar adiante nesse novo corpo. O luto sobe, como um balão preto cheio de hélio, mas não voa fácil pela janela, fica pairando no teto do cotidiano.

Encher de ar cem balões pretos, soprando dentro deles, insuflar com toda melancolia que esteja guardada nos pulmões essas membranas pretas e hiperoxigenar o corpo: a performance pode ser um belo ritual de encerramento do luto. E para o ritual ser coletivo, o visitante leva um balão branco, vazio, com a inscrição “ainda”. A ele cabe o sopro.

– Falta-me qualquer coisa que seja feita de vento.

No longer but still

“It would be easier to have lost an external part of me.”

Loves live within us. Loss, not by dissension, but rather by a decision of nature, is overwhelming as if an internal organ had been removed. The body no longer functions as it did before. It’s altered. The pain, like a nail piercing the wrist; that is the most similar experience to this unbearable feeling that strikes us when we perceive finitude. He, my loved one, is no longer here, and one day I won’t be either. Absence becomes the most present element. So, he still is, but in this form of absence. He didn’t merely decease. He is deceased.

Ana Teixeira’s exhibition Não mais, mas ainda [No longer, but still] develops the theme of bereavement in drawings, photographs, installations, and a performance. If in this day and age we lack sufficiently comforting rituals or if our society is not a receptive group, it’s up to each one to invent their own rites of passage. And Ana Teixeira does so by drawing hands that feel in the flesh the pain of no longer reaching what they want. Pierced, burned, crushed, these hands sketched in white lines on black paper repeat the word tattooed on the wrist: ainda (still). They are hard, and bear the pain. In two large drawings, also in white on black paper, tree branches, from an imaginary realm that belongs to the fantastical and the ghostly, open out as if wanting to inhabit the rooms. They sprout from the wardrobe, emerge from the bed, they are still there. The shoe is a sign of this absence; the flute only plays that same tune, the one about melancholic branches. In another drawing, a languid hand allows itself to be taken by these shoots of sadness. It doesn’t even look like the same steady hand that was pierced at the start of the process.

Finally, hands and branches merge in the thirty-five-piece wall installation that one minute look like small branches, the next resemble hands grasping out. Strength to bear the pain and melancholic urge integrated in the same piece.

The photographs in this exhibition resemble a film whose images have been lost, leaving only the subtitle behind: “And what’s the moon good for now?”

Cultivating absence, feeding it with tears, subtitling it with words are strategies to procrastinate the resumption, to keep the company, at least, of the absence, to postpone the reinvention of life in this new body, which has lost an appendix. Or two, in fact: both the loved one and the illusion of infinitude. Interestingly, in Portuguese, we say that when someone knows they are going to die, they are undeceived. We deceive ourselves the rest of the time, with the soft illusion that we are perpetual. Those who have lost a loved one are also undeceived, as they start living without the appendix of self-deceit, conscious that life does indeed end. It is far from easy to carry on in this new body. Bereavement rises, like a black, helium-filled balloon, but it does not fly easily out the window, it hovers against the ceiling of everyday life.

Filling one hundred black balloons with air, blowing inside them, breathing back in all the melancholy stored in the lungs of those black membranes and hyper-oxygenating the body: the performance could easily be a beautiful closing ritual for bereavement. And for the ritual to be collective, the viewer takes a white, empty balloon stamped with the word ainda. The participant will provide the breath.

“I am missing something made of wind.”

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