Resta o corpo

Há dez anos, quando comecei a acompanhar a obra de Ana Teixeira, intervenções urbanas eram a práxis, misturando fazer artístico e ação no mundo. Havia a esperança no coletivo, e no poder das ideias, que oferecidas ao transeunte, poderiam modificar o homem e, a partir daí, modificar a humanidade. Essa foi a época de pegar a barraca de camelô e ir ao mercado oferecer uma bandeja de doces, os sonhos, em troca de que o participador enunciasse seu sonho. A ação de rua tinha então um caráter de descondicionamento do cidadão, oferecendo um instante em que ele poderia quebrar a rotina, levar um susto com uma proposta excêntrica, e assim acessar suas mais secretas aspirações. Apesar de repetir a ação muitas vezes, colocando na rua seu laboratório antropológico-libertário, o resultado não animou a artista. O sonhos contados eram quase sempre clichês tão enjoativos quanto o doce oferecido: ganhar na loteria, ser feliz, a paz no mundo, a casa própria, ajudar a mãe… acompanhados de uma correta presença auto-consciente de quem está na frente das câmeras. As ações posteriores continuaram a ser tentativas de intervir simultaneamente no espaço público e na consciência privada. “Outra Identidade” evitava o lugar-comum das respostas do indivíduo alienado, oferecendo já de antemão frases bizarras que o passante escolhia para ocupar o lugar de seu nome em uma falsa carteira de identidade: eu falo mentiras, queria menos de mim às vezes, tenho sonhos. Eliminando a performance do participador, ganhou-se em espontaneidade. Ninguém precisava imitar uma celebridade declarando o sonho de sua vida. E cada um escolhia sua essência, a frase que o definiria, em um rol de opções inventadas pela artista. A consequência que participar dessa ação teve em cada um não é da nossa conta, não precisa ser verbalizada, passa a ser absolutamente privada. A obra nesse ponto caminhou em direção ao indivíduo, sem o risco de tratá-lo como massa, como povo a ser escutado nas ruas, mas sim entregando uma carteira de identidade que incitaria cada um a fazer seu trabalho individual de reflexão. Humanidade constitui-se de individualidades. Recuperar estas afeta aquela.

O conjunto de desenhos e esculturas apresentados na Galeria Central corrobora o caminho rumo ao indivíduo. Sinalizando uma desilusão com a ação grandiosa de ir às ruas, a artista agora desenha e modela argila sozinha no ateliê. Ainda assim, são ações. E das ideias descondicionantes, passa às ações de todo dia, que sempre são iguais, como passar fio dental, comer, masturbar-se, cortar as unhas. Ainda assim, repito, são ações. E por mais repetitivas que sejam, não caem no clichê e no condicionante pois são feitas em privacidade, fora do olhar do outro. Fechando-se no banheiro, é mais fácil transgredir a conduta ditada pela propaganda do fio dental e da marca de esmalte. É possível existir um pouco mais genuinamente nos atos miúdos do que nas ações públicas, desviar da ameaça que os clichês oferecem à experiência da vida, sentir-se indivíduo vivente. Da existência sincera vivenciada nos pequenos atos dedicados ao corpo entende-se a frase “e é sempre apenas isso: uma maneira frágil de desobedecer à morte”, que a artista toma emprestada de um poema de Manuel de Freitas. Não se trata de cuidar do corpo para ao menos ter alguma atividade que nos distraia da incontestável finitude. Ao contrário, os gestos mínimos e cotidianos revelam a consciência da finitude: serão repetidos muitas vezes, porém, num número finito de vezes. E assim desobedecem à morte que, como negação da vida, pode ser entendida também como aquilo que nega o processo definitivo de vida, que é a liberdade de escolher o que fazer com a matéria, inclusive com o próprio corpo. Cuidar do corpo nesses gestos mínimos e genuínos descritos nos desenhos da exposição é a mínima liberdade de escolha de ação na matéria; é a mínima ação de vida. Ainda assim, repito, é ação.

É importante ainda notar que essa exposição não trata de ideias abstratas (seus sonhos, sua identidade). Dessa fase idealista da produção de Ana Teixeira restam as fotografias de nuvens moldadas como alguém as vê, como o que se gostaria que elas fossem, exercício semelhante à vontade de impor as ideias no real das ruas. Ao contrário, os desenhos e esculturas, mãos e pernas em ação, lidam com a própria materialidade do sujeito, com a química, o alongamento, os vícios e prazeres, as possíveis opções de maleabilizar o ser concreto mais íntimo, aquele em-si que está mais próximo da minha consciência. O corpo-cidade, o corpo-dos-outros, são outros seres mais distantes, porém também sujeitos aos e sujeitos dos atos miúdos do dia-a-dia. Assim, volta-se ao que temos de mais comum, não importam quais sejam os sonhos ou identidades de cada um, e talvez essa seja a maneira frágil de desobedecer à impersonalização daqueles objetos que andam pelas ruas querendo, todos, ganhar na loteria, ser feliz, a paz no mundo, a casa própria, ajudar a mãe.

The body is what remains

Ten years ago, when I was first introduced to Ana Teixeira’s work, the praxis at the time was urban intervention, which combined making art and acting directly in the world. High hopes were deposited in the power of collectiveness and of ideas, which, in being offered to passers-by, could change people and, in turn, change mankind. This was the time when we took street vendor stands to the local market and offered a platter of pastries called sonhos (or ‘dreams’), asking the participants to tell us their dreams in exchange. At that point, the distinctive feature of street action was its focus on deconditioning the citizen, providing him with an instant when he could break his routine, be surprised by an eccentric proposition, and thus access his most secret aspirations. Although she repeated the action multiple times, taking her anthropological-libertarian laboratory to the streets, the artist was not intrigued by the end results. The dreams that were recounted were almost always clichés as cloying as the pastry that had first been offered: winning the lottery, being happy, world peace, becoming a homeowner, giving financial support to one’s mother…. complemented by the correct, self-conscious presence one assumes when facing the camera. The succeeding actions continued to be attempts to simultaneously intervene in the public space and in private consciousness. “Another identity” avoided the common-place answers of the alienated individual, providing the passer-by with bizarre phrases in advance, which he could pick to substitute his name in a false identity card: I lie, at times I wish there was less of me, I have dreams. By eliminating the participant’s performance, more spontaneity is achieved. No one needed to imitate a celebrity declaring the dream of their life. And everyone chose their essence, a phrase that would define them, amongst a list of options invented by the artist. The result this action had on all those who participated does not concern us, need not be verbalized and has become strictly private. In this regard, the work has moved in the direction of the individual, without incurring the risk of framing him as part of the masses, as the populace to be listened to out in the streets, but by handing an identity card that would prompt each person to carry out their individual reflection. Humanity is constituted of individualities. Recovering the latter strongly affects the first.

The set of drawings and sculptures presented at Galeria Central reinforces the path towards the individual. Signalling disillusionment with the grandiose action of taking the streets, the artist now works on drawings and clay models alone in her studio. Nonetheless, these are still actions. And from the ideas for deconditioning the individual, she has moved to everyday actions, which are always the same, such as flossing, eating, masturbating oneself, cutting ones nails. Even so, I repeat, they are actions. And as repetitive as they might be, they are never cliché or conditioned because they are done in private, away from the gaze of others. By locking oneself in the bathroom, it is easier to transgress the conduct imposed by the dental floss or the nail polish brand ad. It is possible to exist slightly more genuinely in trivial actions than in public actions, to turn away from the threat that clichés pose to life experiences, to feel like an individual who experiences life. From the sincere existence of the small acts dedicated to the body it is possible to understand the phrase “and it’s always just this: a fragile way to defy death,” which the artist borrows from a poem by Manuel de Freitas. It is not about caring for the body as a means of at least having an activity that distracts us from the incontestable finitude. On the contrary, the minimal everyday gestures reveal the consciousness of finitude: they will be repeated over and over, albeit a finite number of times. And hence they disobey death, which, as the negation of life, can also be understood as that which denies the unambiguous life process, which is the freedom to choose what to do with matter, including one’s own body. Taking care of the body in these discreet and genuine gestures, portrayed in the drawings displayed in the exhibition, is the minimal freedom of choice of action over matter; it is the minimal action of life. Even so, I repeat, it is action.

It is important also to note that this exhibition does not deal with abstract ideas (your dreams, your identity). There are photographs of clouds moulded into forms as seen by someone, as what we would like them to be, an exercise similar to the desire of imposing ideas on the reality of the streets, remnants of the idealist phase of Ana Teixeira’s production. In contrast, the drawings and sculptures, hands and legs in action, deal precisely with the materiality of the subject, with the chemistry, the stretching out of one’s limbs or body, the vices and the pleasures, the possible options for making the most intimate concrete being more lithe and nimble, that Being-in-itself that is closer to my conscience. The body-as-city, the body-of-others, are other more distant beings, though they are also subject to and subject of the tiniest everyday actions. Hence, we return to what is most common to all of us, irrespective of individual dreams and identities, and possibly this is the fragile way to disobey the impersonality of those objects that roam the streets, all of them wishing to win the lottery, to be happy, wishing for world peace, to be a homeowner, to provide financial support to their mothers.

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